Com pandemia, startup cria serviço e reverte parte da receita para distribuição de quentinhas

Fundada por Tarso Oliveira, empresa que faz “match” entre candidatos em vulnerabilidade social e empresas criou novas soluções durante a quarentena. Em 2019, o empreendedor Tarso Oliveira, 27, criou a startup de impacto social Troca, que atua na inclusão profissional de pessoas em vulnerabilidade no Rio de Janeiro — como aquelas em situação de rua, egressos do sistema carcerário, mulheres que sofrem violência doméstica e a população LGBTQI+ vulnerável.

Tarso Oliveira, fundador e sócio da Troca (Foto: Divulgação)
Nesse período, 31 pessoas foram conectadas a oito empresas. Contudo, com a pandemia do novo coronavírus e seu efeito no mercado de trabalho, o fundador viu parte do público atendido perder o emprego e as empresas pararem de contratar. Não houve jeito: foi necessário se adaptar. Durante a quarentena, a empresa desenhou o projeto Pocket, que oferece para empresas o serviço de acompanhamento socioemocional de seus funcionários (tanto operacionais quanto em home office). O primeiro cliente foi a Câmara do Comércio e Indústria Brasil-Alemanha do Rio de Janeiro, que buscava acompanhamento psicológico para 17 funcionários.

Para não perder de vista a essência do negócio, ou seja, o impacto social, 20% da renda é revertida para outro projeto criado pela startup durante a pandemia: o Cozinha do Bem, que distribui quentinhas para pessoas em situação de rua e da periferia no Rio de Janeiro. “Hoje, a gente já chegou em mais de mil quentinhas por dia”, conta o empreendedor. O projeto funciona com a parceria do projeto Covid sem fome e do Gastromotiva. 

É também por meio da parceria com ONGs que a startup consegue os bancos de dados de pessoas em vulnerabilidade social para seu serviço principal: uma espécie de “match” entre as pessoas e as empresas. Soma-se a isso o acompanhamento dos contratados, para auxiliar na permanência no emprego. Para fazer o "match", os candidatos fazem dois testes. Um de análise comportamental e outro de situação de vulnerabilidade. “Nossa premissa era: essas pessoas eram contratadas por um currículo, mas demitidas por um comportamento. Por que não ser mais efetivo para todo mundo?” A empresa, por outro lado, indica qual o perfil desejado para a vaga, tanto comportamental quanto de vulnerabilidade. O algoritmo é responsável por fazer esse “match” na parte de seleção. “Nem toda empresa está disposta a incluir a pessoa mais vulnerável, então a gente conseguiu criar um índice para a empresa se guiar”, conta Oliveira.

O serviço Pocket, segundo o empreendedor, ajudou a recuperar parte da receita perdida durante a pandemia. “O mais legal é que, agora, estamos chegando em agosto e também conseguindo retomar nosso produto antigo de recrutamento, seleção e acompanhamento”, explica.O novo programa também será aplicado para a empresa “Orgânicos in Box. “Com eles, a gente vai fazer um acompanhamento de um público vulnerável”, conta Oliveira. “Partiu do pressuposto de inclusão deles. Não foi a gente que incluiu, mas eles contrataram a gente para dar esse acompanhamento do Pocket.”

O sistema de acompanhamento é oferecido via WhatsApp, tanto no serviço principal de recrutamento e seleção quanto no Pocket. Segundo o empreendedor, para isso, são levantadas demandas individuais do público atendido, mas também oferecidas disciplinas próprias do programa. São usados recursos como chamadas de vídeo e envio de áudios, textos e imagens. 

Criação do negócio

Tarso nasceu em Porto Alegre, mas se mudou para a capital fluminense para estudar Dança na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após se formar, contudo, percebeu que sua verdadeira realização viria do trabalho em um negócio de cunho social.

Depois de ver uma matéria sobre um professor dos Estados Unidos que havia levado crianças para assistir ao filme “Pantera Negra” no cinema, ele decidiu que queria fazer o mesmo por aqui. Conseguiu, então, levar 230 crianças da periferia. A Troca nasceu algum tempo depois, em 2018, mas como uma consultoria. A primeira experiência foi com a Brownie do Luiz, em um projeto de incluir pessoas em situação de rua para vender os produtos da empresa na praia.

"Cozinha do Bem" na Unisuam, no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

Depois de uma viagem para a ONU, em Nova York, onde recebeu uma bolsa, e fazendo MBA de responsabilidade social, Tarso viu que poderia expandir o negócio para mais do que uma consultoria. Foi assim que nasceu a startup. No fim do ano passado, a empresa conseguiu levantar R$ 100 mil em investimentos, o que ajudou a dar tranquilidade no atual momento de crise.

Além de todo o serviço de recrutamento e seleção, a empresa também auxilia a empresa no processo de inclusão. Já o acompanhamento do funcionário pode durar de seis meses a um ano. “A Troca é essa minha manifestação de que a gente precisa construir uma sociedade melhor. E a luta que eu decidi lutar é a questão da desigualdade de oportunidade de renda.”